Dulce Maria Cardoso: O Retorno

ROMA 01 LT 03 01O tema do seu romance O Retorno, Dulce Maria Cardoso conhece-o bem. A autora, filha de colonos (Peralta 2019: 333), passou a sua infância em Angola antes de regressar a Portugal pela ponte aérea de 1975 (Mendes 2017: 730). Foi graças a uma bolsa literária do Ministério da Cultura que escreveu o seu primeiro romance Campo de sangue, publicado em 2001. O romance O Retorno, publicado em 2011, foi traduzido em várias línguas, incluindo italiano (Il Ritorno, 2013), francês (Le Retour, 2014), espanhol (El Retorno, 2018) e inglês (The Return, 2016) – uma tradução que ganhou o English PNE Translate Award. Dulce Maria Cardoso estabeleceu-se como autora incontornável da literatura portuguesa contemporânea: vencedora de numerosos prémios literários, incluindo o Prémio da União Europeia para a literatura, os seus romances são regularmente incluídos nos currículos das escolas e universidades.

 ROMA 01 LT 03 02No seu romance, a autora deixa a voz a Rui, um jovem adolescente português que cresceu em Angola. À medida que as ondas da revolução dos cravos chegam às costas africanas, a agitação do anúncio da independência iminente de Angola degrada as relações entre brancos e negros. Com pressa de partir, Rui e a sua família têm de abandonar tudo o que conhecem para chegar à metrópole, terra da última esperança. A família de Rui encontra-se alojada num hotel de luxo com muitas outras famílias que regressam do que ontem foi chamado o Império português.

Em Portugal pós-colonial, Rui é um destes Retornados, uma lembrança indesejada dum passado vergonhoso. A história dos Retornados, termo depreciativo (Mendes 2017: 732) utilizado para descrever esses portugueses das colónias tornados migrantes perseguidos durante os acontecimentos da descolonização, é, segundo Peralta (2019: 311), “dos temas menos estudados e menos compreendidos da história portuguesa contemporânea”. Dedicando o seu livro “aos desterrados” (O Retorno, p. 5), a autora associa-se nesta veia memorialista das narrativas de regresso (Mendes 2017: 733), desejando inscrever esse assunto do retorno traumático (Mendes 2017: 730) “no campo da cultura memorial portuguesa” (Peralta 2019: 333).

No entanto, a história de Rui não pode ser a história dum retorno: é sobretudo a história duma partida. Ao contrário dos seus pais, de origem portuguesa, Rui nunca conheceu a metrópole. Estabelece-se na narrativa uma complexa “relação com o território, questionando o paradoxo de retornar a um lugar que não se conhece” (Prata 2014: 76). Angola, terra natal, terra “abençoada”, onde “tudo o que se semeia nasce” (O Retorno, p. 33), é a única pátria que o Rui conhece. Desta terra sagrada, Rui é arrancado à força, como um terramoto que o teria impelido para a metrópole. Claramente desiludido com a sua chegada ao Estoril, Rui cai numa espécie de melancolia da sua terra, mas sobretudo numa fúria contra si próprio, porque “só um cobarde abandona a sua terra sem dar luta” (O Retorno, p. 125-126).

Rasgada da sua presença em África, a família do Rui encontra-se presa entre o seu ser e o seu devir. Rui está temporariamente alojado num hotel de luxo, um refúgio entre duas terras e dois mundos, “uma plataforma de trânsito prolongado” (Prata 2014: 71) “lugar de asilo e exílio” (Prata 2014: 77). Os retornados alojados no hotel assemelham-se às caixas abandonadas nos cais, como se fossem os únicos resquícios da grandiosidade de Portugal no meio de uma metrópole degradada. Dividido entre o crepúsculo da sua infância em África e a aurora da sua vida adulta na metrópole, o jovem aproveita essa “noite” no hotel para se perder em reflexões e conclusões sobre o que está a acontecer, como se se apercebesse da sua importância:

E agora não adianta dizer, a união faz a força, se ficarmos todos juntos não nos acontece nada de mal, é tarde demais, se nos tivéssemos unidos antes nunca teríamos sido retornados, agora já não há nada a fazer.
(O Retorno, p. 128)

Perante a fragmentação irreversível do povo português, a única solução para Rui seria partir em busca de uma nova terra, um lugar onde as suas raízes pudessem crescer de novo, longe da terra podre de Portugal. A esperança de uma nova terra permite-lhe escapar nos seus devaneios, onde “com o mar à frente o futuro […] pode ser o que se quiser.” (O Retorno, p. 108). Embora Rui ainda tenha alguma esperança para o futuro, o regresso do seu pai obriga-o a mudar os seus planos. O pai, determinado a não se submeter à situação, mas a tomar a sua vida nas suas próprias mãos, impõe-se nesta terra que não escolheu:

Nunca mais ninguém me expulsa de lado nenhum, esta vai ter de ser a minha terra.
(O Retorno, p. 243).

A estas palavras, Rui não pode deixar de mostrar o seu ressentimento: se um homem pertence à terra que o sustenta, porque é que o pai se submete a um país que o deixou a morrer à fome? Mas o adolescente, ainda em busca da sua identidade e virilidade, deixa-se levar pelo entusiasmo e autoridade do pai e baixa a sua guarda. Pronto para lutar, Rui deixa o hotel para a sua nova casa, e termina a sua história com uma esperança, por muito ténue que seja, para o futuro.

Também sei que numa coisa esta terra não é diferente de nenhuma outra, […] esta terra não rejeita o que lhe põem em cima, isso também sei, e é por isso que vos digo que o futuro passa pelo que se vai pôr em cima dessa terra.
(O Retorno, p. 257)

Assim, o romance O Retorno é também a história de uma chegada: a chegada à metrópole desses “sobreviventes do grande naufrágio do império” (Prata 2014: 76). Como explica Peralta (2019: 322), a chegada dos desalojados depois da “catástrofe social” resulta numa “integração exemplar”, fruto de diluição ou ocultação na sociedade portuguesa. O testemunho de Rui, alegoria da história dos retornados e do colonialismo, escreve-se “no plano instável das memórias” (Prata 2014: 76), e retrata os retornados como donos de seu destino. A história de Rui oferece-nos outra conclusão dos acontecimentos, uma conclusão em que os retornados não são apenas as vítimas da descolonização e do declínio do Império, mas uma versão da história em que os retornados se tornam os atores do Portugal pós-revolucionário. Dessa maneira, o romance mostra-nos que ainda há muitas histórias para contar, e sobretudo muitas maneiras de contar a História.

Referências bibliográficas

CARDOSO D. M., 2019, O Retorno, Lisboa, Tinta da China.
MENDES A. C., 2017, “Remembering and fictionalizing inhospitable Europe: The experience of Portuguese retornados, in Dulce Maria Cardoso’s The Return and Isabela Figueiredo’s Notebook of Colonial Memories”, Journal of Postcolonial Writing, 53/6, pp. 729-742.
PERALTA E., 2019, “A integração dos retornados na sociedade portuguesa: identidade, desidentificação e ocultação”, Análise Social, 54/231, pp. 310-337.
PRATA A. F., 2014, “O cronótopo do hotel e a formação da mémoria em O Retorno, de Dulce Maria Cardoso”, Navegações, 7/1, pp.69-76.
Imagens
DULCE MARIA CARDOSO: https://www.babelio.com/auteur/Dulce-Maria-Cardoso/169009
O RETORNO: https://www.fnac.pt/O-Retorno-Dulce-Maria-Cardoso/a560321

revue roma blanc 120 Cet article a été rédigé pour la revue ROMA 1/2020 par Sophie Née.
ULB multigram Label